Com a presente edição, o Instituto de História da Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, em colaboração com as Edições Colibri, inicia uma série de publica ções de teses académicas na área da História da Arte. Crê, assim, também neste âmbito, prosseguir no cumprimento dos seus objectivos. Está nos propósitos actuais do Instituto, agora que já saiu à estampa, com periodicidade anual, a sua
Revista de História da Arte, publicar numa colecção que intitulamos "Estudos", também anualmente, um trabalho monográfico que tenha obtido a melhor classificação e se revele de grande interesse para o desenvolvimento dos estudos de História da Arte no nosso País.
A obra escolhida para iniciar esta série de edições monográficas é a que agora se apresenta ao público sob o título D
ecoração Vegetalista nos Mosaicos Portugueses, da autoria de Licínia Nunes Correia, que a apresentou como dissertação de Mestrado em História da Arte da Antiguidade. Trata-se de um trabalho meritório, orientado cientificamente pelo saudoso Professor João Manuel Bairrão Oleiro, autoridade por todos reconhecida nos estudos sobre mosaico romano em Portugal. Esta dissertação foi apresentada no ano de 1985 e deve ser considerada no âmbito do repertório documental e bibliográfico até então publicado. Desde então, tem-se felizmente assistido a um significativo desenvolvimento da investigação sobre o mosaico romano no território português, enriquecimento para o qual contribuiu significativamente, mesmo com a divulgação limitada praticamente aos meios académicos, esta obra que só agora foi possível dar à estampa.
A decoração vegetalista nos mosaicos romanos revela-se, também no território português, como profundamente significante no dinamismo dos
opera tessellata, seja nos contextos urbanos, seja nos contextos rurais. A vivência dos quotidianos em estreita interacção com a natureza, a percepção do inexorável correr dos dias na sucessão das estações do ano (
tempus fugit) e o constatar das transformações cósmicas, consigo arrastando o devir humano, levam tradicionalmente, desde os tempos gregos e helenísticos, à produção de iconografias em que se destacam as referências ao mundo vegetal, associadas à complexificação de mentalidades num fundo mítico-ideológico, no qual imperam crenças dionisíacas e se geram comportamentos que encontram a sua origem nas antiquíssimas comemorações do solstício de Inverno. Estas não são mais do que o esconjuro da ameaça ou do receio de uma não renovação cósmica face à esperança de um contínuo rejuvenescimento do Homem no seio da Natureza e para além dela. A representação das raízes, dos troncos, das folhas, das flores e dos frutos nos mosaicos romanos é, por isso, importante também pela transmissão de formas e de conteúdos aos tempos paleocristãos e medievais.
Esta obra sai do prelo na altura em que decorre em Conímbriga o
X.° Colóquio Internacional da AIEMA (Association Internacional pour l'Étude de Ia Mosaïque Antique), acontecimento que traz ao nos so País os maiores especialistas nesta área de investigação. O Instituto de História da Arte, ao editar esta obra, procura também neste campo ajudar a dinamizar os estudos sobre o riquíssimo património musivo existente no nosso território e a incrementar a divulgação científica dos trabalhos de investigação sobre a Arte do Mosaico.
M. Justino Maciel
(Responsável no Instituto pela área de História da Arte da Antiguidade)