Por portaria de s. ex.a o ministro das obras publicas, de 18 de fevereiro 1898, sob proposta do eminente inspector das Escolas industriaes do norte 0 ex.mo sr. Antonio José Arroyo, ouvido o illustre chefe da repartição de industria o ex.mo sr. conselheiro dr. Joaquim Tello, se resolveu mandar imprimir, por conta do estado, o trabalho que apresento:
Ceramica portugueza moderna.
De certo que a insigne honra, que me conferiu s. ex.a o ministro, é devida mais á sua muita benevolencia d0 que ao merito verdadeiro do meu estudo.
O meu profundo reconhecimento a s. ex.a
Nos fins de 1892 recebi da afamada
Manufacture nationale de Sèvres, perto de Paris, um pedido do eminente conservador das preciosas colecções d'este estabelecimento, sr. Edouard Garnier, em que me communicava a vantagem que haveria em reunir uma collecção dos actuaes produetos das diversas fabricas portuguezas. Tratava-se menos de reunir objectos de arte do que especimens interessantes sob o ponto de vista da technologia ceramica, isto é, as pastas ceramicas, os vidrados, 0s processos usados na pintura das louças, etc.
As collecções assim reunidas dos diversos paizes, constituiriam uma fonte de estudos e comparações muito interessantes.
Pareceu-me que, se a industria ceramica portugueza não era muito desenvolvida em certos ramos, nem por isso deveria deixar de concorrer a este certamen. Tratei, pois, de reunir exemplares dos differentes pontos do paiz, assim como amostras das materias primas correspondentes.
Para isso dirigi-me directamente aos fabricantes de maior importancia, encarregando ao mesmo tempo pessoas amigas de colher amostras e informações, alem de muitas outras que obtive pessoalmente, conseguindo d'este modo reunir senão uma collecção completa -não era esse o meu fim-ao menos sufficientemente desenvolvida para dar uma idéa satisfactoria dos diversos ramos da ceramica portugueza moderna.
É obvio que não tive a ambição de agrupar todos os typos da ceramica portugueza, muito variaveis entre si, sobretudo os typos populares cujas fôrmas têem sido objecto de estudos ethnographicos e de criticas por parte de diversos auctores.
Como synthese d'estes esforços resultou poder offerecer ao museu de Sèvres cerca de 250 peças differentes de louça portugueza desde a mais commum até a mais artistica. Colleccionei ao mesmo tempo proximamente 450 amostras de argillas e pastas acompanhadas da sua certidão de authenticidade.
Estas collecções chegaram a Sèvres nos principios do anno corrente. Da collecçáo das argillas existe duplicado e triplicado na Escola industrial de Coimbra.
A minha tarefa, n'este ponto já bastante longa, podia dar-se por finda. Luctei com effeito com certos embaraços para reunir estes documentos e collecções.
Mas, por mais interesse que offereça uma collecçáo technologica, perde comtudo do seu valor, se não for acompanhada de notas elucidativas. No caso presente tornava-se quasi que indispensavel proceder ao estudo technologico e economico da industria ceramica e ao estudo chimico das materias primas.
Foi pelo menos assim que encarei o problema e que, aproveitando o material que me chegava de todos os pontos do paiz, fui tratando do seu estudo.
A monotonia d'este trabalho foi largamente compensada pelo interesse que despertava. Na verdade pouco ou nada havia escripto em Portugal sobre as argillas usadas na industria. No estrangeiro, em França, por exemplo, o classico
Traité des arts céramiques, de Brougniard, apenas se refere a meia duzia de argillas portuguezas, que terei occasiáo de transcrever.
Havia, é certo, alguns estudos já feitos e a que me refiro mais adiante; mas estes trabalhos, elaborados em geral por criticas de arte, não continham documento analytico algum.
Quando por toda a parte, onde a ceramica é tida como industria seientifica, as analyses e ensaios se multiplicam, em Portugal, mesmo os melhores fabricantes, preparam as suas pastas verdadeiramente ao acaso, como se não houvessem regras definidas que regulem a composição chimica das faianças, porcellanas, tijolos ordinarios ou refractarios, cte. Não pretendo com isto dizer que o humilde oleiro da aldeia deve mandar analysar o seu barro, porque de pouca ou nenhuma utilidade lhe servia na impossibilidade em que se encontraria para lhe fazer qualquer modificação.
Mas, o que não está ao alcance do modesto fabricante deve, pelo contrario, ser a norma das emprezas de vulto. Ora, quantas analyses já se fizeram ás pastas de Vista Alegre, Sacavem, Alcantara, Devezas, etc. Y Centros importantes de fabrico, como Coimbra e Caldas da Rainha, nem sequer uma analyse tinham! Apenas o mero acaso ou uma experiencia mal dirigida presidem á composição das pastas. Por isso não é raro ver confundir entre fabricantes margas com argillas !
A par das informações analyticas, dei o desenvolvimento necessario á technologia ceramica. Evitei entrar na deseripção dos processos usados nas grandes fabricas de porcellana, faiança fina, materiaes de construcção, etc., por estes assumptos se acharem já devidamente desenvolvidos nos diversos tratados elassicos d'estas especialidades e a que todos podem pois recorrer.
Por isso insisti principalmente na descripção dos processos pouco conhecidos e não deixei de indicar o caminho a seguir, quando se offerecia a occasiáo, para se poder levantar uma industria que tem raizes tão profundas no solo portuguez.
Para tornar menos fastidiosa a leitura do meu trabalho, julguei interessante intercalar umas noções historicas sobre as diversas louças portuguezas, recorrendo para isso, quer a publicações conhecidas, quer á amavel collaboração de pessoas amigas.
Cumpre-me agora, antes de concluir este preambulo, consignar aqui, como grato dever que é, o meu mais profundo reconhecimento a todas as pessoas que tão obsequiosamente me honraram com a sua valiosa collaboração. De certo, que se não fosse a boa vontade e extrema amabilidade com que responderam ás minhas impertinentes perguntas, este opusculo não teria, na realidade, visto a luz.
Mantinha já relações de amisade com muitos dos meus collaboradores; outros, apesar de não ter a honra de os conhecer pessoalmente, nem por isso foram menos solicites.
A todos reitero o meu reconhecimento pelo auxilio prestado.
Em primeiro logar citarei aqui o nome do meu actual preparador na Escola industrial de Coimbra, o sr. José Antonio dos Santos, que, durante dois annos, foi, na parte analytica, um zeloso, intelligente e precioso collaborador, sem se enfadar nunca com a tarefa assaz aborrecida de analyses similhantes, que no fim já nenhum interesse analytico despertavam.
Seria faltar a um dever sagrado não apontar esta preciosa collaboração sem outra mira senão o,desejo de tomar parte n'uma obra de utilidade.
Tambem não devo esquecer o nome de dois outros discipulos meus, o distincto pharmaceutico o sr. Aureliano José dos Santos Viegas e o sr. Francisco Arruda, que tambem nos auxiliaram nas analyses, assim como deram o seu contingente para a colheita das informações.
Em seguida farei recair os meus agradecimentos sobre os industriaes que obsequiosamente me forneceram eollecções dos seus productos, e sobre os informadores que se dignaram responder ás minhas perguntas preenchendo os questionados enviados. A todos, repito, a minha indelével gratidão pela maneira bizarra como amenisaram o meu trabalho.
Eis a lista dos meus obsequiosos collaboradores:
Dr. Lucio Martins da Rocha, lente da universidade ; Dr. Luiz Augusto de Oliveira
1; informação sobre o districto de Vianna do Castello.
Rocha Peixoto, professor na Escola industrial Infante D. Henrique, no Porto, e abalisado naturalista; Dr. Sousa Gomes e Dr. Silva Basto, lentes da universidade; informaram sobre o districto de Braga.
Nuno de Novaes Junior, professor de desenho na Escola industrial D. Luiz I, em Villa Real
2, e Bellarmino de Sousa, quintanista de medicina; sobre o districto de Villa Real.
Dr. Antonio Olympio Cagigal ; sobre o districto de Bragança.
No Porto os conhecidos industriaes Antonio da Costa & C.a, da fabrica das Devezas, e J. Pereira Valente; eollecções e informações das suas fabricas. Adolpho de Sousa Reis, professor da Escola Industrial Infante D, Henrique, collaborou com um relatorio muito desenvolvido acompanhado de eollecções technicas de valor.
Em Aveiro o director da fabrica de Vista Alegre, Duarte Ferreira Pinto Basto, e Carlos Hugo Richter, mestre de ceramica na Escola industrial de Aveiro; offerta de eollecções e informações.
José de Matos Sobral Cid e Duarte Ponces de Carvalho, alumnos médicos; informaram sobre o districto de Vizeu.
Dr. Accacio Ferreira, medico em Foscôa; Dr. Freitas Cardoso e Amandio Gonçalves Paúl; informaram sobre o districto da Guarda.
Antonio Augusto Gonçalves, director da Escola industrial de Coimbra e critico de arte; Affonso Pessoa, fabricante de faiança em Coimbra; Francisco Gil, director da Escola industrial Bernardino Machado, na Figueira da Foz; José de Mello Brandão, pharmaceutico em Oliveira do Hospital, e Fernandes Costa, pharmaceutico em Coimbra; informaram sobre o districto de Coimbra.
José Pereira Barata, quintanista de medicina; informou sobre o districto de Castello Branco.
Eduardo Gonçalves Neves, director da Escola industrial Rainha D. Leonor, nas Caldas da Rainha; Raphael Bordallo Pinheiro
3; Ernesto Corrodi, professor na Escola industrial Domingos Sequeira, em Leiria
4; Lino Nuno de Barros
5, pharmaceutico em Pombal; informaram sobre o distrieto de Leiria.
Dr. Ruy Telles Pallinha, professor do lyceu de Santarem ; Dr. Ramiro Guedes, medico em Abrantes ; Luiz Cazimiro Franco, director da Escola industrial Victorino Damasio, em Torres Novas; e Manuel Henrique Pinto, director da Escola industrial Jacome Ratton, em Thomar; informaram sobre o districto de Santarem.
Angelo Coelho, professor da escola industrial Fradesso da Silveira; informou da maneira a mais completa possível, sobre o districto de Portalegre, como se verá no estudo.
João Rocha, preparador de chimica no Instituto industrial de Lisboa; - Almeida Junca, fabricante de productos ceramicos ; o engenheiro Antonio Jorge Freire, e Antonio Carvalho da Fonseca, pharmaceutico; informaram sobre o districto de Lisboa.
Caetano Augusto da Conceição, proprietario da olaria «Alfacinba», em Extremoz ; José Albino Dias, director da Officina ceramica «Medico Soares», em Vianna do Alemtejo; Dr. Cardoso de Lemos, medico em Casa Branca; informaram sobre o districto de Evora.
Antonio Ignacio Piçarra, pbarmaceutico em Bernigel; José Pedro Dias, pharmaceutico em Ourique; sobre o districto de Beja, Dr. Antonio Padinha, medico em Tavira ; sobre o districto de Faro. Dr. Carlos Leite Monteiro, medico no Funchal; sobre a ilha da Madeira.
Dr. Jacintho Arruda, medico em Ponta Delgada e Padre Pedro Rocha informaram sobre os Açores.
Aos eminentes geologos Paul Choffat e J. Barkeley Cottes devo informações preciosas e amostras das argillas do terciario de Lisboa.
Emfim, ultimamente recebi do sr. conselheiro Severiano Monteiro uma valiosa collecção de 130 argillas nacionaes, umas com applicações conhecidas, outras cujos usos não vinham indicados. Foram submettidas aos respectivos ensaios que resumo em differentes quadros conforme as categorias.
1 Que alem de informações de caracter technico, me facilitou as minhas investigações, offerecendo-me o valioso catalogo da Exposição d'arle ornamental de T Vianna do Castello.
2 Que me remetteu, com a maior amabilidade, amostras, desenhos das louças, re. latorio circumatanciado, etc.
3 Que tão gentilmente me offereceu para o museu de Sèvres uma linda e valiosa collecção dos seus productos artísticos.
4 Que tão obsequiosamente se deu ao incommodo de mandar informações acompanhadas de mappa e graphico.
5 Por indicação do sr. Vicente José de Seiça, director pharmaceutico do dispenastorio da universidade.
N'este trabalho tive principalmente em vista apresentar o estado actual da industria ceramica portugueza nas suas diversas manifestações, desde a mais rudimentar até a mais desenvolvida. Estudei os barros e pastas dos principaes pontos do paiz e se, como é natural, devido á sua extraordinaria variedade, deixei de tratar alguns, estou, porém, convencido de que estes pouca ou nenhuma importancia terão.
É um estudo preliminar ao grande inquerito da ceramica nacional, que não pude ou não soube fazer melhor. Deixo aos estudiosos, a quem o assumpto interessar, a faculdade de poder ampliar, e muito, este trabalho. Porém, esforceime, no pouco que fiz, por ser escrupuloso, quer nas informações, quer nas analyses.
Como fonte de informações recorri tambem a diversas publicações e relatorios de exposições portuguezas d'estes ultimos annos.
Entre outras citarei os estudos muito interessantes do sr. Joaquim de Vasconcellos sobre a ceramica portugueza, insertas no livro Ceramica portugueza, publicado pela Sociedade de instrucção do Porto, por occasião da exposição promovida em 1882 pela referida sociedade, n'um intuito de propaganda em favor do progresso e levantamento d'esta industria
1.
Uma exposição districtal, muito interessante, que se realisou em Coimbra em 1884, reuniu productos de todo o districto e diversas publicações dão a largos traços uma idéa dos principaes especimens expostos.
A ceramica estava ahi representada principalmente por faianças communs e materiaes de construcção
2.
Em 1888 realisou-se em Lisboa a exposição industrial, que visitei opportunamente, onde recolhi algumas indicações, e de que se publicou um catalogo
3.
Uma nova exposição industrial teve logar em Lisboa em 1893, de que se publicou um catalogo de que tambem me utilisei 4 e que era devido á penha auctorisada do sr. conselheiro dr. Joaquim Tello, chefe da repartição de industria
4.
Alguns outros artigos e publicações de differentes criticos d'arte portugueza me foram igualmente de muita utilidade, nomeadamente os artigos do sr. Ramalho Ortigão
5, Joaquim de Vasconcellos
6 e Antonio Augusto Gonçalves
7.
Recentemente tive occasião de visitar a exposição industrial do Porto, onde obtive informações que vieram confirmar ou modificar opiniões que antecipadamente tinha formado.
1 Exposição de ceramica, documentos coordenados por Joaquim de Vasconcellos. Sociedade de instrucção, Porto, 1883.- Ceramica portugueza, estudos e documentos por Joaquim de Vasconcellos, Porto, 1884.
2 Exposição districtal de Coimbra, 1884; Revistas e conferencias.
3 Catalogo da exposição nacional de industrias fabris, Lisboa 1888, pag. 305.
4 Relatorio e catalogo da exposição industrial portugueza, realisada no museu industrial e commercial de Lisboa, 1893, pag. 195.
5 Ramalho Ortigão, A fabrica de Caldas da Rainha, Porto, 1891.
6 J. de Vasconcellos, Á fabrica de faiança de Caldas da Rainha, Porto, 1891.
7 A. A. Gonçalves, A ceramica na exposição districtal de Coimbra, in-4.°, revista illustrada da exposição de Coimbra, 1884, pag. 18.